De Michelle Bolsonaro a Sergio Moro: por que Eduardo Girão insiste em mirar Ciro Gomes?
A pré-campanha ao Governo do Ceará começa a revelar não apenas candidaturas, mas também estratégias políticas claras. Nos últimos meses, dois episódios chamaram atenção pelo mesmo motivo: figuras nacionais da direita vieram ao Ceará e, curiosamente, direcionaram suas críticas principalmente ao ex-ministro Ciro Gomes — e não ao Partido dos Trabalhadores (PT), que atualmente governa o estado.
O primeiro episódio ocorreu em dezembro, em Fortaleza. Durante um evento político em torno da pré-candidatura do senador Eduardo Girão ao Governo do Ceará, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro criticou publicamente o deputado André Fernandes por sua aproximação política com Ciro Gomes.
A fala provocou uma verdadeira implosão no campo da oposição naquele momento, levando à suspensão das tratativas políticas com o tucano e embaralhando alianças que vinham sendo discutidas.
Neste sábado (14), o roteiro se repetiu. O senador Sergio Moro foi levado a Sobral por Eduardo Girão para participar de um evento que reforça sua pré-candidatura ao governo cearense. No entanto, novamente, o foco do discurso não foi o PT ou o governo estadual.
Moro voltou suas críticas diretamente a Ciro Gomes, afirmando que o ex-governador teria dito que, se ele fosse a Sobral, seria “recebido com bala”.
A frase remete a uma entrevista concedida por Ciro Gomes em 8 de junho de 2018 ao portal Metro1, da Rádio Metrópole. No trecho citado, o ex-ministro — que é formado em Direito, foi professor universitário e atualmente atua como advogado — afirmou que falava em termos jurídicos, referindo-se ao direito de qualquer cidadão reagir a uma arbitrariedade.
No próprio vídeo da entrevista, Ciro classificou a interpretação literal da frase como um “truísmo”, expressão utilizada no meio jurídico para algo óbvio ou evidente para profissionais do Direito.
Ainda assim, o episódio voltou ao centro do debate político no Ceará neste fim de semana.
A pergunta que fica
Diante desse cenário, surge uma questão inevitável no tabuleiro político cearense: por que Eduardo Girão insiste em concentrar suas críticas em Ciro Gomes em vez de direcioná-las ao PT, que hoje governa o estado?
A estratégia levanta hipóteses. Uma delas é que Girão tenta ocupar um espaço específico no eleitorado cearense: o de oposição simultânea ao petismo e ao grupo político dos Ferreira Gomes. Outra leitura possível é que a disputa pelo protagonismo dentro da própria oposição esteja antecipando um confronto direto com Ciro antes mesmo da eleição.
Há ainda um elemento simbólico no evento realizado em Sobral — cidade historicamente associada à trajetória política da família Ferreira Gomes.
Levar uma figura nacional para criticar Ciro justamente em seu reduto político carrega um peso que vai além de um simples discurso de campanha.
Pré-campanha ou confronto?
O fato é que, em vez de apresentar propostas para o Ceará, os eventos recentes acabam sendo marcados por confrontos políticos direcionados.
E isso levanta outra reflexão: até que ponto essa estratégia fortalece uma pré-candidatura ou apenas aprofunda disputas dentro da própria oposição?
No jogo político, escolher o adversário principal diz muito sobre o projeto de poder que está sendo construído. E, pelo que se observa até agora, a pré-campanha de Eduardo Girão dar sinais de não ter "oxigênio" suficiente se quer um embate no grupo oposicionista.
Resta saber se o eleitor cearense espera mais embates ou mais propostas para o futuro do estado.


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